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A conversão do médico em Lourdes

 

 

 

ALEXIS CARREL

(1873-1944)

por Albert Bessiêres, S. J.

Em 1935, aparece o livro O homem, êsse desconhecido. Um acontecimento literário. Enorme sucesso de livraria. Traducões em todas as linguas. O velho materialismo burgués de Renan (transformado na religião dos ditadores vermelhos), que já fôra abalado por Brunetiêre e Bergson, recebia o golpe de misericórdia. E dado justamente por quem! Por um fisiologista, prêmio Nobel, médico, cirurgião, universalmente célebre e já legendário.

ORIGENS

Alexis Carrel é um lionês de velha estirpe. Nascido em Sainte Fov-lês-Lyon, em junho de 1873, ai passava as férias, porém residia o resto do ano em Lião, com a mãe e dois irmãos mais moços, José e Margarida. O pai, industrial, morreu em 1877. A mãe consagrou-se à educação dos três filhos, auxiliada por seus irmãos, pertencentes à boa burguesia lionesa. Ambiente folgado, culto e cristão.

Terminado o curso de Humanidades no colégio de jesuítas da Rua Santa Helena, Alexis inicia os estudos médicos na Faculdade de Lião.

À CRISE

Aluno brilhante, de personalidade já marcada, provido de extraordinárúo senso de observação: dizem seus amigos que "êle tem olhos até atrás da cabeça".

Não obstante, êsse pensador, que não se deixa enganar, e no terreno científico é capaz de enfrentar os mestres, sofre, como seus contemporâneos Charles Nicolle e Lecomte du Noüv. a influência materialista do meio.

Às teses de Taine, Berthelot e Renan (inventores do positivismo materixlista, divulgadores enfatuados de si mesmos, infinitamente inieriores, do ponto de vista científico, aos sábios que acabei de citar e a êsses grandes cristãos, pais da ciência moderna: Ampêre, Cauchy, Volta, Biot, ;Pasteur, etc.) imperam tanto em Lião como em Paris.

Resultado: após alguns anos de estudos médicos, CarreI perde a fé. Cientista convicto, afirma sem pestanejar:

"Nenhuma certeza é válida fora dos fatos cientificos comprovados."

Portanto, os grandes rroblemas humanos que jamais deixaram de atormentar a humanidade - Deus, alma espiritual e imortal, milagre, lei moral codificada no Decálogo - são puras hipóteses destituidas de valor racional.

Como dirá, porém. em seu livro póstumo A Viagem de Lourdes, Carrel em vão afirma seu agnosticismo, pois sente o coraçao e razão protestarem contra a aridez a que se condenou.

Ser-lhe-ão necessários quarenta anos para reencontrar o tesouro que sacrifica tão despreocupadarnente. "Quanto tempo perdido, que poderia ter empregado tão bem!" - dirá êle.

Como explicar essa aventura, tão parecida com a de seus êmulos (Charles Nicolle e Lecomte du Noúy?

Na biografia de meu nm:go Pierre Poyet, apóstolo da Escola Normal Superior, citei as palavras que êle repetia como refrão a seus discípulos: "A obrigação de vocês é dar o máximo nos estudos profanos: fisica, química, filosofia, matemática, etc., mas ao mesmo tempo adquirir e manter uma ciência religiosa proporcional à ciência humana. Sem o que, uma coisa matará a outra: a filosofia, a filologia e -a física de vocês arruinarão a fé."

Pio XII, na sua mensagem pelo rádio à Ação Católica Portuguêsa, desenvolve o mesmo pensamento: "Retirai a instrução religiosa (instrução proporcional às possibilidades de cada um) e a formação científica mais perfeita será de todo insuficiente para proteger e propagar a vossa fé."

Ora, enquanto o apetite científico de Carrel nunca se dava por satisfeito, fazendo-o devorar volumes e mais volumes. multiplicar experiências, consultar mestres e especialistas, êle só parecia não interessar-se por uma ciência essencial, como relata no Jornal e nas Meditações, a ciência do homem, da alma, de Deus e do Destino.

Seus conhecimentos a êsse respeito continuarão sendo os de um bom estudante que aprendeu catecismo para a Primeira Comunhão, e que fêz, sem esfôrço pessoal para assimilá-los, alguns cursos de religião.

Ao lado dos mestres da medicina, e da fisiologia, deveria ter sôbre a mesa de trabalho - como Ampêre, Cauchy ou Volta e mais tarde Brunetiêre - as melhores páginas de Bossuet e de Santo Agostinho, um bom manual de teologia, uma boa Vida de Cristo. . . Não tinha nada, porém.

No entanto, um estado cotidiano da religião, na década de 80-90, se fazia tanto mais necessário quanto os pontífices do positivismo reinavam nos meios científicos.

"Nossos mestres materialistas nos mentiram" - escreve um dia Lecomte du Noüy. Carrel, no auge de sua carreira, fará a mesma verificação. Enquanto isso, porém, êle, homem de feroz independência, absorve os venenos ministrados por sectários, sem preocupar-se em opor-lhes um antídoto.

O grande pecado dessa geração está nisso. Deixou que lhe roubassem a fé sem cuidar de protegê-la e defendê-la seriamente.

LOURDES

Em 1903. aos 30 anos de idade, doutor em Medicina, e professor de anatomia na Faculdade de Lião, Carrel aceita acompanhar a Lourdes um trem de doentes. "Uma caceteação - diz êle. Trata-se, porém, de prestar serviço a um colega, substituindo-o.

Entretanto, sem dissimular o mau humor, Carrel se sente satisfeito com a oportunidade de criticar de perto os acontecimentos de Loiirdes. Os católicos falam em milagre.Evidentemente se enganam Moléstias nervosas podem ser mais ou menos curadas pela sugestão que se desprende de uma multidão em prece. Charcot realiza milagres semelhantes. e os faquires também o fazem.

Há ainda outra coisa, porém - objeta um camarada de colégio Que faz a mesma peregrinação: casos de câncer, de lupo, de tuberculose, de luxações, fraturas, cegueira congénita, estudados minuciosamente no Serviço de Verificaçoes por médicos de todos os paises, crentes e descrentes.

"Impossível - replicou Carrel. - As verificações de-em ter sido mal feitas, antes, durante ou depois - . - O milagre até agora não foi comprovado cientificamente. Aliás, éle é absurdo, pois as leis da natureza são imutáveis. Nenhum argumento pode, realmente, contradizer a verdade dos fatos. Ponham-me em presença de um fato e eu me inclinarei..."

Assim, o seu papel em Loutdes será apenas o de um bom instrumento registrador, que faz abstração de suas opiniões: Após o regresso, concluirá.

Em sua obra póstuma (publicada pela esposa), A viagem de Lourdes, Alexis, (usando como pseudônimo o anagrama de seu nome invertido: doutor Lerrac), narra com bastante humor a sua peregrinação. Descreve as personagens: o Vigário Geral, a madrinha, os padres e as enfermeiras, e os lamentáveis destroços humanos cantando a Ave Maria, vão pedir a cura.

O MILAGRE

Sua atenção é atraida por uma jovem enfêrma agonizante, Maria Ferrand (o nome verdadeiro era Maria Bailly), com peritonite tuberculosa em último grau. Os pais morreram tuberculos, os cirurgiões abandonaram a paciente e recusaram operá-la.

Carrel examina com atenção a agonizante, confirma plenamente o diagnóstico de seus confrades, e declara a seu amigo A. B.: "Receio que ela morra em minhas mãos. Se ficasse curada, seria verdadeiramente um milagre. Eu acreditaria em tudo e me tornaria monge!"

Deus responderá ao desafio. Ao chegar a Lourdes, Maria Ferrand está prestes a morrer. Carrel trata-a, observa escrupulosamente a evolução do mal, e desaconselha o banho de piscina, que poderia matá-la. Limitam-se a aplicar-lhe algumas loções, e transportam-na, de maca, para a Gruta. Carrel acompanha-a com seu amigo A. B. e murmura:

"Ah! Bem que eu gostaria, como todos êstes infelizes, de acreditar que vós sois apenas uma estranha fonte, criada pela nossa imaginação. O Virgem Maria, curai esta môça; ela ja sofreu muito. Deixai-a viver um pouco, e fazei-me crer."

De súbito êle se julga alucinado! Diante de seus olhos, a quase morta revive, seu rosto ganha colorido, o pulso volta ao normal, o ventre extraordinãriamente inchado diminui pouco a pouco de volume.

Carrel anota no punho da camisa a hora exata: 2 h. 40. Às 3 horas, a ressurreição é um fato consumado. "Estou curada" - diz Maria Ferrand. Dão-lhe uma xícara de leite. A dor e a tumefação desapareceram. Carrel encontra-se diante de uma agonizante que se tornou normal, apenas um pouco enfraquecida. São 4 horas. Carrel escreve:

"Era a coisa impossível, a coisa inesperada; era o milagre que acabava de produzir-se."

Minuciosamente, durante a tarde e a noite, estuda o caso, anota os detalhes. Dois outros médicos juntam suas observações às dêle. Interroga a môça:

"Que vai fazer agora?" "Vou viver com as religiosas de São Vicente de Paulo; serei recebida por elas e cuidarei de doentes."

Feliz e aborrecido ao mesmo tempo com o fenômeno, Carrel, depois de andar muito tempo dentro da noite, penetra na basilica, senta-se ao lado de um velho camponês e, com a cabeça entre as mãos, pronuncia esta oração:

"Doce Virgem, socorro dos infelizes que vos invocam humildemente, guardai-me. Eu creio em vós. Respondestes à minha dúvida com um milagre esmagador. Não sei compreendê-lo, e duvido ainda. Meu maior_desejo, porém, a finalidade última de minhas aspirações, é crer."

Não é ainda a "conversão", mas apenas sua preparaçao longínqua. Carrel necessitará de longos anos, pesquisas e sofrimentos para libertar-se. Um milagre, por si só, jamais converteu alguém. A ressurreição de Lázaro não converteu osiNïriséus. A verificação dos maiores milagres não converteu Emile Zola. A conversão é produto da graça, que respeita a liberdade e pressupõe uma prece humilde.

O cientificismo reinante começara negando o milagre e sua possibilidade, em nome das imutáveis leis da natureza. A isso o progresso da pesquisa respondeu por uma nova tese: a contingência das leis da natureza. Boutroux e II. Poincaré escrevem: "Damos o nome de leis a fatos e a verificações que poderiam ser diferentes; são hipóteses cômodas, às quais o sinal que caberia melhor seria o ponto de interrogação. A lei da atração, por exemplo, comandara os infinitamente pequenos? Ignoramos."

O positivismo de Taine, Berthelot e Renan, desalojado de suas posições, volta-se então para uma tese eontraditó­ria da primeira: a tese das "fôrças desconhecidas". É bem verdade que não sabemos tudo; que não sabemos "tudo" a respeito de nada. Sabemos, porém, alguma coisa: do contrário, a medicina e a ciência seriam pura charlatanice. Sabemos que três gôtas de água natural não bastam para restituir a visão a um bebê cego de nascença.

Carrel não compreendeu igualmente a verdadeira natureza do milagre. O milagre não é uma "explosão" da Onipotência divina, é um sinal por meio do qual Deus responde aos nossos apelos: "Estou aqui. Vejo e escuto." Como disse Santo Agostinho: "Dar vista a um cego, multiplicar cinco pães para nutrir cinco mil homens, é prodígio menor do que amadurecer as colheitas ou fazer com que criaturas nasçam com olhos."

Mas o costume torna insensíveis a êstes fatos os espiritos superficiais. O relógio faz esquecer o relojoeiro. Eis por que Deus opera êsses prodigios menores, os milagres, que chamam a nossa atenção por seu caráter excepcional. Énecessário ainda diferenciá-los dos falsos encantamentos, e prestar atenção à atmosfera moral, à finalidade dos milagres.

Enquanto as artes infernais se desenvolvem em um clima de ostentação amoral ou imoral, os milagres autênticos tendem apenas à conversão ou à santificação das testemunhas.

A PROVA

Voltando a Lião, após o choque de Lourdes, Carrel prepara seu concurso para cirurgião hospitalar.

Em um artigo honesto e em várias conversas com professôres, seus julgadores de amanhã, expõe os fatos que testemunhou em Lourdes. Milagre? .Jôgo de fôrças desconhecidas? Não formula qualquer conclusão; mas seus inter-locutores, sectários, solidamente ancorados no positivismo que Renouvier qualificou de primarismo do espírito, respondem-lhe: "è inutil insistir. Com tais idéias o senhor nada tem a fazer entre nós."

Segundo incidente: diante dos examinadores, Carrel tem a audácia de expor sua primeira grande descoberta, relativa à sutura dos vasos sanguíneos. Corta-se a artéria de um cão; em vez de fechar as duas extremidades, como praticam seus mestres, o que paralisa a circulação, Carrel imagina costurá-las. Perfeito. O sangue volta a circular sem empecilhos.

Os "mandarins" não gostam de receber lições. Detestam inventores e precursores. Carrel é reprovado por unanimidade.

Éle, porém, tem personalidade. Lião o repele? Embarca para a América em maio de .1904. Recebido de braços abertos para os Estados Unidos, é escolhido por unanimidade para dirigir o Laboratório de Cirurgia Experimental, do Instituto de Pesquisas Médicas, fundado por Rockefeller. Aí, multiplica descobertas sôbre a sobrevivência das células e a reparação dos tecidos por meio de enxertos.

Um gato vive com o rim de outro, um cão anda com a perna de outro, um coração de galinha, colocado em um vaso e borrifado por um líquido alimentar, vive de 1912 a 1940, vinte e oito anos! Morre então de velhice.

Em 1912, o Prêmio Nobel recompensa essas descobertas.

Em 1914, Carrel volta a Lião para servir a seu pais. Os mandarins não se desarmaram. Simples enfermeiro de avental, o sábio é enfim chamado, graças à intervenção dos Estados Unidos, a dirigir o hospital que Rockcfeller fundara à margem da floresta de Compiêgne. Lecomte du Noüy será seu colaborador.

As descobertas prosseguem. Os mestres impõem o use da tintura de iôdo, e depois se arrependem. Êste antisséptico destrói os micróbios, mas deteriora os tecidos. Portanto, guerra ao iôdo! O cientista fabrica o "liquido Carrel", que destrói os micróbios e não ataca os tecidos. Com êle e com o enxêrto de pele, Carrel e seus discípulos salvarão milhares de feridos.

Isso não desarma os adversários do inventor, porém revela a êste a vaidade da opinião e dos sucessos puramene humanos.

Terminada a guerra, volta aos Estados Unidos, de onde retornará em avião para de nôvo servir a seu pais, em 1939. O govérno do Marechal Pétain faz um apêlo a sua dedicação, e lhe confia em 1941 a criação e direção de uma obra estritamente cientifica: o Instituto da Ciência Humana. Éà infância e à juventude debilitadas pelas privações e pelos deslocamentos, que o Instituto se consagrará de preferência.

Após a Libertação, alguns superpatriotas, não contentes em suprimir o Instituto, tratam Carrel como suspeito e castigam-no pela atividade desinteressada que desenvolveu a serviço de sua pátria ferida. Sua saúde, que já era precária, não resistirá à prova, mas a injustiça dos homens o terá ajudado a realizar as ascensões supremas.

DOIS AMIGOS SEUS

Para essa elevação contribuíram várias grandes amizades. Entre as duas guerras, Carrel adquiriu, no litoral da Bretanha, a ilhota de Saint-Crildas. O Coronel Lindberg, aviador célebre, primeiro a realizar a travessia do Oceano Atlântico, procura-o em circunstâncias trágicas: após o seu grande raide, os gangnsters roubaram-lhe o filho. O aviador encontrou o cadáver da criança sob uma moita em flor. Apela então para Carrel: "Salve-me do desespêro!"

O sábio chama-o para perto de si. Lindberg compra a ilhota de Illiec, vizinha de Saint-Gildas, e se torna colaborador de Carrel.

Lindberg, que também julgara possível passar sem Deus, volta à fé; expressará seu retôrno às concepções espiritualistas em um artigo de grande repercussão: "Vi a ciência que adorei, e a aviação, que amei profundamente, destruírem a civilização... Compreendo agora que a verdade espiritual é mais necessária a uma nação do que os canhões defensores dos muros de suas cidades.. . Devemos aprender a aplicar as verdades de Deus aos atos humanos e à 2 orientação da nossa ciência."

Ésse retôrno ao ideal cristão é, ao mesmo tempo, causa e efeito das conversas entre Lindberg e Carrel.

Fato mais importante: Dom Alexis Presse, abade do mosteiro cisterciense de Boquem, vizinho de Saint-Gildas, tornou-se, em 1937, amigo e confidente do sábio. Já nos Estados Unidos, Carrel tivera muitas conversas íntimas com um jesuíta, o Padre Clifford, a quem é dedicado o livro O homem, ésse desconhecido.

Carrel expõe suas dificuldades a Dom Alexis. Parece-lhe impossivel conciliar os dogmas católicos com as conclusoes da ciência. Responde-lhe Dom Alexis: "Não se trata de dogmas, mas de teorias e de hipóteses livres."

Isso foi para o sábio "uma verdadeira libertacão".

"Criticam-me - prossegue Carrel - porque, em meus livros A oração e O homem, êsse desconhecido, emprego a única linguagem que conheço, a lioguagem cientifica. Não sou filósofo nem teólogo. Falo e escrevo como cientista."

Aqui, Carrel toca em um ponto nevrálgico. Como Monsieur Jourdain, que fazia prosa sem o saber, êle faz constantemente teologia e filosofia sem o saber. Ora, falta-lhe, como disse, uma formação filosófica e teológica séria. Daí muitas inexatidões de linguagem, tanto mais desagradáveis quanto o !eitor comum é levado a atribuir ao filósofo a mesma autoridade que ao sábio.

Certamente, a lealdade de Carrel não está em jôgo. Dom Alexis escreve: "Ainda o escuto dizer-me com energia:

Desejo crer e creio em tudo aquilo em que a Igreja Católica deseja que nós creiamos, e não tenho a menor dificuldade, pois não vejo nisso qualquer oposição real aos dados seguros da ciência."

DIANTE DO MATERIALISMO

Mais ainda do que essas amizades de que acabei de falar, o estudo das grandes crises sociais da atualidade contribui para libertar a alma de Carrel.

Algumas obras universalmente conhecidas marcam as etapas da ascensão. A primeira, O homem, ésse desconhecido. é publicada em 1935 (Plon). Sucesso imenso, dezoito traduções. Um volume póstumo, Reflexões sóbre a conduta da vida (1950, Flon), retoma e completa as teses principais da obra precedente. Jamais o caráter desumano de nossa civilização materialista fêra denunciado, nem mesmo por Bergson, com essa energia. O homem, na era mecanizada, orientada para o dinheiro e o gôzo, é um infeliz.

Negando o primado do espírito, nossa civilização "barbarizou-se'. Não avançamos, recuamos. Só a verdade nos libertará. Verdade, não sôbre o átomo, mas sôbre o homem. "Conhece-te a ti mesmo!" Não nos conhecemos mais. A culpa é da escola, transformada em máquina de deformação; é da política e da sociologia, ignorantes dos valóres espirituais.

Meio artificial, que não está adaptado à nossa estatura nem à nossa natureza. Nêle degeneramos moral e mentalmente. "Nêle nos tornamos loucos." As doenças mentais (nos Estados Unidos) são mais numerosas que tôdas as outras doenças reunidas...

A religião do confórto e do padrão de vida continua­mente acrescidos pelas necessidades artificiais que criamos conduz à pior 'proletarização", a do espírito. O marxismo leva ao mesmo resultado que o capitalismo.

Ao esquecer a necessidade do esfôrco, do Vince te ipsum, impelimos o homem à "idiotia intelectual", que não distingue mais o verdadeiro do falso, e, o que é pior, à "idiotia moral" que já nem distingue o bem do mal.

Será ainda possível a salvação? Sim, concluem os dois volumes de Carrel. Para reconstruir o homem, é necessário utilizar as fôrças do "coração e do sentimento": as religiões. particularmente o Cristianismo e, sobretudo, os podêres da inteligência: a Ciência... Conclusão pelo menos imprevista, depois do que acabâhios de ler. Em verdade, nessas duas obras, Carrel permanece inconscientemente prisioneiro do Nôvo Ïdolo, a Ciência Experimental. Ao próprio vocábulo "Ciência", ele continua a dar um sentido abusivo.

Etimológicamente, a palavra "scire" significa saber. Ora, como Carrel verificará mais tarde, um São João da Cruz, um São Vicente de Paulo, um Cura d'Ars, todos os grandes místicos, "sabem" muito mais sõbre as grandes realidades - homem, Deus, destino - do que um fisiologista ou um sociólogo titular do prêmio Nobel.

A 0RAÇÃO

O pequeno volume A oração (PIou, 1944) assinala nova etapa na evolução espiritual de Carrel.

"O homem tem vergonha de rezar" - diz Nietzsche. "Na realidade - responde (Barrei - êle tem tanta vergonha de rezar como de beber ou de respirar. O homem tem necessidade de Deus, como tem necessidade de água e de oxigênio.

"A influência da prece sóbre o espirito e o corpo humano é tão fàcilmente demonstrável quanto a secreção das glândulas. Seus resultados se medem pelo acréscimo de energia física, de vigor intelectual e de fôrça moral, e pela compreensão mais profunda das realidades fundamentais."

Em suma, a prece deve ter um lugar destacado na salvação da civilização.

Era necessário que essas coisas fôssem ditas por um grande sábio. Entretanto, ainda aqui, Carrel permanece a meio caminho da verdade. Tem o direito de louvar a prece do muçulmano, do budista; mas o espírito científico, que invoca, exigiria dêle uma definição: existe ou não existe uma prece autenticada pela revelação, uma prece que dever traduzir-se por atos. por "práticas", que a Igreja, de acórdo com o Evangelho, converteu em lei?

A resposta a êsses problemas, encontramo-la enfim no Diário e nas Meditaações incorporadas à Viagem de Lourdes, e que nos revelam um Carrel desconhecido até mesmo de seus amigos.

Com a idade de 65 anos, no pináculo da carreira científica, êle está bem próximo do Credo de sua infância. Digo "bem próximo, porque êle ainda não compreendera inteiramente a necessidade do que chamamos de "prática" religiosa.

Escreve Dom Alexis: "A questão religiosa interessava-o em extremo; gostava de falar nela. De nossas numerosas conversas sõbre o assunto, adquiri a convicção de que, se sua vida religiosa prática parecia deficiente em certos pontos, não obstante êle era um dêsses adoradores de Deus em epirito e em verdade, de que nos fala Nosso Senhor. De suas pesquisas científicas aprofundadas, recolhera uma admiração entusiástica pela criacao, admiração essa que convergia sôbre o Criador. Fazia de Deus uma idéia sublime. Poucas vêzes encontrei alma tão impregnada pràticamente da presença e do pensamento de Deus, do respeito, da reverência, da adoração a Deus. Êle O estimava realmente acima de tudo, e O preferia a tudo."

NOTAS ÍNTIMAS

Percorramos agora o Diário e as Meditações, onde Carrel nos confia sua alma. Eis alguns extratos:

"Que cada minuto de minha vida seja consagrado ao vosso serviço. Senhor. Na escuridão em que tropeço, procuro-Vos sem cessar."

Natal, 1939.:" á meu Deus, quanto lastimo não ter compreendido nada da vida, e ter tentado compreender coisas que é inútil querer compreender."

"A vida não consiste em compreender. mas em amar, em ajudar aos outros, em rezar e trabalhar... Fazei, é meu Deus, que não seja tarde demais. Fazei com que a última página do livro não esteja ainda escrita Que um outro capitulo possa ser ajuntado a éste mau livro."

"Falai, pois vosso indigno servo escuta. Eu vos ofereço o que me resta. - Peço-vos que me orienteis no verdadeiro caminho, o caminho dos simples, dos que amam e rezam. Perdoai-me os muitos erros que cometi na vida."

"A mim, servo indigno, de uma tão completa ignorância, dai a graça da luz.

"á meu Deus, no dia em que se comemora o nascimento de Vosso Filho, eu vos faço o abandono total de mim mesmo, com o remorso infinito de ter passado pela vida como um cego."

12 de fevereiro (1940), Paris: "Que erro imenso, o de nossa civilização!"

1 de junho (1940), Nova York: "Desmoronamento de todo o imenso passado de fôrça e de virtude da França."

"á meu Deus, como é terrível deixar de seguir a vossa lei

"Como a derrota da França nos castiga com justiça pelos nossos erros!"

"Só agora chego a compreender o que deveria ter compreendido desde a infância : a verdadeira significação da lei de Jesus, a lei do amor, da abnegação, do devotamento, do sacrifício."

16 de dezembro (1940) : "Que cegueira, a dos intelectuais! Eu mesmo não tinha compreendido.., O imenso êrro da civilização atual foi dar primazia ao desenvolvimento intelectual e social. . . Queremos conhecer o sentido

da vida. Ë impossível conduzir a nossa vida se não soubermos o que ela significa e o que significa a morte."

DESFECHO DO DRAMA INTERIOR

"Em outubro de 1943 - escreve Dom Alexis, em sua Introdução à Viagem de Lovides - o doutor Carrel me chamou à sua ilha de Saint-Gildas. Conversamos muito. Parecia prever sua morte próxima; aceitava-a calmamente, mas dizia: "Gostaria que Deus me concedesse ainda dez anos de trabalho. Com o que aprendi e com o que consegui em minhas experiências, creio que chegarei a estabelecer cientificamente as relações entre os objetivos espirituais e os materiais, e a mostrar assim a veracidade e os beneflcíos do cristianismo."

Portanto, como explicar o ilogismo já assinalado: "Como é que um homem tão profundamente religioso ~ escreve Dom Alexis - pode permanecer alheio ao que chamamos de prática? Não era por respeito humano. Quando êle estava na França, assistia. todos os domingos, à missa, e quando eu celebrava o Santo Sacrifício na sua capela de Saint-Gildas. Carrel sempre estava presente.

"Eu estaria inclinado a dar essa explicação depois de certas declarações que êle me fêz: observara freqüentemen te que, para muitas pessoas, a prática significa apenas rotina e formalidade, e que certos praticantes tigorosos não são de modo algum cristãos, pois para êles só a prática tem valor, e esta não influi de maneira nenhuma na vida interior dêles; por isso, não dava a menor importância à prática.

"Não a julgava absolutamente necessária. Para êle, a religião era uma coisa diferente disto; só a adoração a Deus, em espírito e em verdade, tem significação. E como, durante longos anos, as circunstâncias lhe tornaram a prática moralmente impossível, êle modelou de outra forma sua vida religiosa, e assim continuou até o fim de seus dias, quando lhe fizeram compreender que havia algo mais a fazer."

Advertido de que era tempo de receber os últimos sacramentos, confessou-se, recebeu o Santo Viático e a Extrema Unção, com a simplicidade de uma criança", como disse MonseKhor Hamayon, que lhe ministrou êsses sacramentos.

Depois de haver assim recuperado inteiramente a fé e a prática religiosa de sua juventude, Carrel morreu, em Paris, a 4 de novembro de 1944, com a idade de 71 anos. De acôrdo com sua vontade, dorme o último sono na capela de Saint-Gildas, sob a guarda dos monges cistercienses, seus amigos.

Este sábio de altíssima categoria, que escrevera páginas impereciveis sõbre a prece, quis que o seu próprio túmulo fôsse uma oração.

Carrel, no apogeu da carreira científica. insurgia-se contra a ditadura do quantitativo e do imediato, e contra a superstiçáo da ciência. Esta superstição o afastara da fé. Um estudo mais aprofundado e mais humilde dos fatos o trouxe 1e volta a essa mesma fé.

APÓLOGO DOS NENUFARES

Pensa-se nêle (e nos dois outros grandes convertidos, seus contemporâneos, Lecomte du Noüy e Charles Nícolie), ao ler o drama de François de Curei, O novo idolo.

Êsse nôvo ídolo (a ciência experimental), endeusado por Taine, Renan e Bertheiot (antes de ser ridicularizado e destronado por êles) transformou-se no Deus único do sábio Albert Donnat. Como Carrel, Donnat acabou descobrindo a impostura dessa falsa divindade.

É o apólogo célebre dos nenúfares brancos de seu lago. Antes que pudessem desabrochar, foram submergidos pela brusca subida das águas. Ameaçados de afogamento, esforçam-se desesperadamente por libertar-se. Morrerão nas trevas - pergunta Donnat - ou vencerá o sol?

Por fim, o sol triunfa, e as belas flôres se abrem à superfície das águas. E o sábio conclui: "Vós, eu, todos os que procuram, somos pequenas cabeças mergulhadas em um lago de ignorância, e alteamos o pescoço, com tocante unanimidade, em direção à luz que é ardentemente desejada. É necessário que haja um sol!"

Depois, abalado pelo heroismo de uma piedosa õrfàzinha (que prenuncia a Maria Ferrand, de Carrel) ignorante que lhe revelou o mundo espiritual ignorado pelo seu microscópio, Donnat murmura: "Minha salvação é que uma pobre ignorante me toma pela mão para guiar-me... Pois quando não se quer morrer como um cão, e sim terminar nobremente, é ainda ao pé dos humildes que adoram a Deus... que os filósofos devem procurar lições de lógica."

O MÉRITO DE CARREL

Após a cura milagrosa de Maria Ferrand, Carrel pediu a Deus e à Virgem a fé dos humildes. Nêle se realizou a palavra do Evangelho: "Felizes aquêles que tem fome e sêde de justiça, porque serão saciados."

Por haver conhecido e "escutado" essa fome, Carrel a saciou. E, mais ainda, tornou-se um de nossos mestres.

"O mundo morre por não ver a Deus" - escreveu Paul Bourget. E é isto que a mensagem de Carrel nos repete.

Numa época em que imperava a ciência de laboratório, éle teve o mérito imenso de prestar, por suas palavras e seu exemplo, como grande biologista, magnífica homenagem a ciência do oratório. Falando do Diário e das Meditacões de Carrel, um escritor suíço não receou afirmar em A liberdade, de Friburgo: "É o mais belo testemunho de além-túmulo que um cristão pode dar a Deus."

Já nas Reflexões sobre a conduta da vida. (obra em que os erros ainda se entrelaçam com verdades), Carrel escreveu sôbre o destino humano: "A resposta da fé é... incomparàvelmente mais satisfatória do que a da ciência."

Sua morte humilde e corajosamente cristã trouxe a essas palavras um comentário junto ao qual o resto ésilêncio.

5/2/2010
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